AO RURAL E O URBANO NO NAIF DE LÍDIA

Roseli Hoffmann Schmitt
Coordenadora da Galeria Municipal de Arte de Blumenau
Crítica de Arte- ABCA

A artista divide seu tema entre aspectos da cidade rural e da cidade urbana, referências de sua vida pessoal, transitando entre a metrópole, Curitiba e sua vida na chácara.
A escolha pela forma redonda é facilitada pela própria característica da arte naif. A linha do horizonte não segue regra, e o mundo é construído em círculo. Não há o em cima e o embaixo.
Além de abordar os temas comuns da arte naif, o folclore, a fauna, a flora, os temas religiosos, com suas procissões, a artista destaca as tradições no campo e na cidade, com as procissões e com a capoeira, as plantações e as casas e os edifícios, mas Lídia vai além do já tradicional desta arte, ela entra no campo do imaginético, criando construções orientais, um mundo cheio de simbologias, como o quadro, o pecado.
A fauna marinha também se faz presente com outra formatação de suporte.
Com cores vivas e de um azul intenso e cores harmoniosas, o trabalho ganha rigor e simplicidade ao usar elementos decorativos como pontos, linhas e flores. O naif se destaca com o emprego simultâneo de várias vistas, ou planos em um único objeto.
Este é o mundo simples e alegre de Lídia.

 

Janelas para o Mundo

Elvira Vernaschi
Historiadora e crítica de arte
Membro da ABCA-Associação Brasileira de Críticos de Arte e da
AICA-Associação Internacional de Críticos de Arte
São Paulo, maio de 2004

Com ancestrais na Ucrânia, Lidia Saczkovski traz e guarda na memória imagens de rendas, bordados, pinturas que caracterizam seu povo. Ela guarda os pequenos e cuidadosos detalhes de como são tratadas todas esssas manifestações. Essa produção que impregna a obra da artista, até um certo ponto ingênua, mas com uma grande consciência do espaço telar e de sua ocupação.
Em seus trabalhos mais recentes, Lidia dá preferência a composições em formas circulares como a nos significar que seu/nosso mundo não tem nem princípio, nem fim. Centenas de casinhas se empilham/justapõem criando paisagens sui generis, com espaços e rítmos que conduzem o olhar para o centro da composição e para o nosso próprio centro. Miríades de portas e janelas descortinam e revelam esse mundo mágico, de cores e luzes. E nos deixamos envolver e conduzir por esses caminhos.
Encontramos a ingenuidade na obra de Lidia Saczkovski exatamente na forma como trabalha o aglomerado de portas e janelas que ocupa a superfície do quadro; através da intensa mas extrema suavidade das cores que criam intensidades de luz - "gosto de muitas janelas porque porque gosto de muita luz"-; através de elementos cujos valores intrínsecos revelam suas possibilidades criativas e que induzem a considerações sobre jogos e magia. Lidia conjuga, em sua obra, a herança cultural e a recuperação da memória coletiva com suas próprias tendências estéticas. São as muitas janelas que abre para si mesma e que se abrem para nós e para o mundo.

O fascínio da arquitetura
Oscar D’Ambrosio
jornalista, mestre em Artes Visuais

Balzac (1799-1850), em A procura do absoluto, afirmou que os acontecimentos da vida humana, seja pública, seja privada, estariam profundamente ligados à arquitetura. Acreditava até que seria possível histórias de nações ou de pessoas a partir dos seus edifícios.
O mesmo raciocínio pode, em grande parte, ser aplicado ao trabalho plástico de Lídia Saczkovski. Suas composições, geralmente em telas circulares, estão fortemente marcadas pela presença de edifícios, sejam igrejas, prédios, lojas ou os mais variados elementos que compõem cidades repletas de construções e com pouca presença humana.
Filha de imigrantes ucranianos, ela nasceu em Irati, Estado do Paraná, em 18 de janeiro de 1951, numa comunidade rural, imersa na religiosidade ortodoxa russa e com ampla convivência com o folclore, a arte, os costumes e idioma eslavos. Isso se mescla com o colorido certamente absorvido, em parte, durante os nove anos que morou no Nordeste brasileiro, caracterizado pela fusão entre as tonalidades quentes e uma riquíssima cultura popular.
Casada com o artista plástico Malah, que foi seu incentivador, também encontrou respaldo em praticas no atelier de Edílson Viriato, em Curitiba, PR. Paulatinamente, foi encontrando o seu próprio estilo, muito marcado pela presença do elemento arquitetônico, tanto do universo urbano como  do rural. 
Ao criar cidades, as estruturas plásticas de Lídia estabelecem numerosas fachadas multifacetadas. Árvores, calçadas e jardins são complementos de uma mistura de elementos, em que surgem, por exemplo, algumas cúpulas orientais e minaretes. Isso auxilia ao estabelecimento de um clima misterioso, pois o universo urbano retratado não é real, mas ricamente imaginado.
No currículo da artista, consta a menção honrosa na importante Bienal Internacional Naïf em Buenos Aires, além de numerosas exposições coletivas. O mais significativo do seu trabalho está justamente na capacidade de dar à arquitetura uma dimensão visceralmente humana.
Esse processo encanta, pois permite uma variedade infinita de composições. O importante é não perder de vista que o seu trabalho encontra um elemento diferenciador justamente na forma despojada como parte da arquitetura para obter a sua linguagem pictórica.
Nesse sentido, uma imagem de prédios justapostos, cenas de capoeira ou de festas populares nordestinas ou do sul brasileiro podem atingir o mesmo excelente resultado estético desde que sempre sejam tratadas com originalidade e criatividade. Assim, cada nova tela nunca será uma repetição da anterior, mas uma versão mais aprimorada na busca do aperfeiçoamento contínuo.
Seja ao tratar do universo, do campo, de pequenas cidades ou de uma metrópole, Lídia Saczkovski precisa se manter atenta para continuar desenvolvendo uma linguagem em que o tema em si mesmo seja menos importante do que a forma da composição realizada.
As cidades da pintora paranaense encantam pela plasticidade e, por seguirem, à sua maneira, o ensinamento de Balzac de que a arquitetura é um dos caminhos mais interessantes para desvendar as almas dos seus construtores e moradores. Assim, ao se observar uma tela de Lídia, estamos aprendendo um pouco sobre ela e sobre a ilimitada capacidade de criar dos seres humanos.

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).