PAISAGEM (1)
João Coviello
"Pintura exige contemplação silenciosa". (Daniel Piza)
"Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!..." (Fernando Pessoa)
Quando Antonio Patitucci, em 1961, respondeu aos artigos-manifestos de Paul Garfunkel, chamando-o de “o consagrado paisagista” e de “o provinciano paisagista” (2), ele [Patitucci] não poderia imaginar o quanto o mundo se envolveria numa verdadeira trama de conceitos. O que para Patitucci em 1961 era antigo, tornou-se novo algum tempo depois, num processo infinito de idas e vindas.
Garfunkel não se sentiu agredido, já que tinha princípios difíceis de alterar-se. Anos depois, Nelson Brissac Peixoto une paisagem e ética num ensaio primoroso (3), tocando em questões caras a Garfunkel. Para Peixoto, a paisagem abre-se ao que não se evidencia e tenta tornar possibilidade o que é impossível. Eis a ocorrência da paisagem: o azul do céu ou o vento soprando nas árvores. A ética, para Peixoto, está no respeito pelas coisas, no “olhar o mundo como paisagem”, no ver rostos e cidades como paisagens. Eis a ética do olhar.
Para Peixoto, portanto, a questão da paisagem é ética: “Retratar o mundo como paisagem, deixá-lo se constituir em horizonte. Mesmo que não se possa mais vê-lo como totalidade. Contemplar a cidade, permitir que ela se configure como paisagem, em vez de construí-la como cenário. Respeitar a estrutura, o tempo, a história do lugar. O quadro, a foto, o plano cinematográfico devem permitir – no enquadramento, na duração – que a paisagem se faça presente. Ainda que apenas para afirmar sua problematicidade.”
Refletindo sobre Cézanne, Merleau-Ponty escreveu que "para todos os gestos que pouco a pouco fazem um quadro só há um motivo, a paisagem em sua totalidade e em sua plenitude absoluta..." (4) Cézanne, no fundo, imaginava a paisagem como organismo nascente e como forma de expressão, mas nunca como imitação.
A rude simplificação das paisagens de Cézanne representa uma nova postura cognitiva da pintura, como bem explicou Paulo Sérgio Duarte. (5) E assim, é possível concluir que a partir de nossas próprias experiências fenomenológicas, o universo nunca mais será o mesmo após o deslocamento sensível de nosso olho em direção à natureza.
Cézanne rompe com a tradição e nos remete à pintura oriental que tanto apaixonou os impressionistas. O que parece desordem na paisagem cézanneana, é, na verdade, uma sintonia com a tradição pictórica oriental: uma viagem do olhar sobre o todo.
Um autor da tradição oriental talvez explique com mais exatidão o senso de paisagem que alguns artistas como Cézanne têm: "No Japão, há uma forma de arte chamada pintura sumi, em que se usa apenas tinta preta e um pincel. A tinta preta é preta, mas ela não é preta enquanto for uma cor única. Se você pinta um pinheiro com tinta preta, essa cor única cria muitas cores. (...) O branco é uma cor, mas, a partir do branco, cria-se o espaço e muitas cores. A partir disso, você pode ver a escala imensa do mundo: dias ensolarados, dias nublados, oceanos - tudo isso expresso de diferentes modos. Você pode sentir isso a partir da pintura sumi; é por isso que, nessa pintura, o preto não é apenas preto." (6)
Suely Rolnik sintetiza assim essa nova cartografia que o nosso tempo tenta traçar: é um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem. (7)
Na imensa tela (3,61 x 5,98 m) O atelier do pintor, alegoria real determinando uma fase de sete anos de minha vida artística, de 1855, Courbet se coloca pintando uma paisagem, a terra natal do artista, numa época em que a paisagem não era considerado um tema digno. Courbet não escolheu, por acaso, uma paisagem para figurar o quadro dentro do quadro: para ele, a paisagem era a pintura das pinturas, “o terreno ideal para as experiências das vanguardas de então”, segundo Jorge Coli. (8)
Também não por acaso, Nelson Brissac Peixoto formula, hoje, a mesma questão: É ainda possível pintar paisagens? (9) A resposta, talvez, está numa nova forma de narração que não seja mera descrição. O excesso descritivo faz com que o mundo desapareça como paisagem; porém, ao contrário, ela pode surgir em detalhes até então despercebidos: o vento, a folha, o pinheiro... A paisagem, enfim, pode surgir nos lugares e pessoas que não são evidentes.
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- A primeira parte deste texto foi adaptada da monografia Uma Cartografia Afetiva: O Desenho de Paul Garfunkel, de João Coviello. Curitiba: Pontifícia Universidade Católica do Paraná, 1999.
- Patitucci, A. Provincianismo e Arte Moderna. O Estado do Paraná, Curitiba, 17 dez. 1961. In: Justino, Maria José. 50 Anos do Salão Paranaense de Belas Artes. Curitiba: MAC-PR, 1995, p.87-89.
- Peixoto, Nelson Brissac. Ver o Invisível, A Ética das Imagens. In: Ética. São Paulo: Ed. Cia. das Letras, 1992, p.305-319.
- Merleau-Ponty, Maurice. A Dúvida de Cézanne. In: Os Pensadores: Textos Selecionados. Tradução Marilena Chauí. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1980, p.119.
- Duarte, Paulo Sérgio. A Dúvida depois de Cézanne. In: Artepensamento. São Paulo: Ed. Cia. das Letras, 1994, pp. 306-7.
- Katagiri, Dainin. Retornando ao Silêncio, A Prática Zen na Vida Diária. Tradução Rubens Rusche. São Paulo: Ed. Pensamento, 1991, p. 86.
- Rolnik, Suely. Cartografia Sentimental: Transformações Contemporâneas do Desejo. São Paulo: Ed. Estação Liberdade, 1989, p.15.
- Coli, Jorge. Manet: O Enigma do Olhar. In: O Olhar. São Paulo: Ed. Cia. das Letras, 1990, p.226.
- Peixoto, Nelson Brissac. Ver o Invisível, p.310.
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ANEXOS
E o coração, o que é?
É o som da brisa do pinheiro
Ali na pintura sumi.
(Zenji Ikkyu)
"Desde os seis anos que eu tinha a mania de desenhar as formas das coisas. Aos cinqüenta publiquei uma infinidade de desenhos; mas tudo o que eu fiz antes dos setenta não merece ser levado em conta. Aos setenta e três, aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza, dos animais, plantas, árvores, pássaros, peixes e insetos. Portanto, quando tiver oitenta devo ter feito ainda mais progressos; aos noventa conseguirei penetrar no mistério das coisas; aos cento e dez tudo o que eu fizer, seja um ponto ou uma linha, estará pleno de vida.
"Peço àqueles que viverem tanto como eu que vejam se consegui ou não cumprir as minhas palavras."
(Katsushika Hokusai, 1760-1849)
NOTA PRELIMINAR
Apontamento solto de Fernando Pessoa (?); s.d.; não assinado; publicado, pela primeira vez, na primeira edição da Obra Poética de Fernando Pessoa, RJ, Aguilar, 1960.
1 - Em todo o momento de atividade mental acontece em nós um duplo fenômeno de percepção: ao mesmo tempo que temos consciência dum estado de alma, temos diante de nós, impressionando-nos os sentidos que estão virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para conveniência de frases, tudo o que forma o mundo exterior num determinado momento da nossa percepção.
2 - Todo o estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espirito. E - mesmo que se não queira admitir que todo estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos estão tristes.
3 - Assim, tendo nós, ao mesmo tempo, consciência do exterior e do nosso espirito, e sendo o nosso espirito uma paisagem, temos ao mesmo tempo consciência de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo - num dia de sol uma alma triste não pode estar tão triste como num dia de chuva - e, também, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma - é de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que "na ausência da amada o sol não brilha", e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade terá de a dar através duma representação simultânea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que terá de tentar dar uma intersecção de duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser - não se querendo admitir que um estado de alma é uma paisagem - que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]
Esta exposição é dedicada a
Paulo Carapunarlo e Paul Garfunkel.
(J.C.) |