ENTREVISTA A LUIZ ARTHUR MONTES RIBEIRO, POR OCASIÃO DA EXPOSIÇÃO DA QUAL FOI CURADOR, NO CENTRO CULTURAL BRASIL-ESPANHA, EM MAIO DE 2001
Todo o processo é importante, principalmente a fase de criação (o fazer). Depois, a fase de comunicação com o espectador. O fazer – ético, acima de tudo – e a comunicação, transformam o mundo das artes em algo fascinante,
Esse conjunto resume uma busca iniciada há muito tempo: a simplicidade da linha e, principalmente, da mancha; a transparência da cor e suas sobreposições; o branco – não como ausência da cor, mas como a soma de todas as cores, como queria Carlos Drummond de Andrade; a paisagem como território ético para experiências estéticas (ético, no sentido de respeito pelas coisas); e a tentativa de que o espectador possa “entrar” no quadro, resumida na seguinte equação: olhar-sentir-entrar.
Todos o conjunto busca a representação de detalhes da natureza. Este conceito de representação não significa apenas uma imitação, mas a forma como observei alguns detalhes. Por exemplo, o trabalho (a) representa o detalhe de uma árvore que existe. Tentei captar os vários tons de verde, buscando principalmente atingir a transparência das cores. A sensação de incompletude é proposital.
Criatividade é a soma de uma série de variáveis que acabam resultando em algo que nos espanta – porque sempre misterioso – como a própria vida. Essas variáveis incluem uma necessidade de se expressar; o desenvolvimento de uma técnica expressiva em conjunto com muito treinamento; o acaso; a liberdade; e um repertório que vai crescendo com a experiência.
Como o ponto de partida é, até agora, sempre a natureza, o primeiro momento é a observação de detalhes que podem passar despercebidos: as gradações de verde de uma árvore, a formação de nuvens num determinado dia, as linhas que a metrópole nos apresenta...
É difícil comparar uma cidade como Curitiba com São Paulo, por exemplo, que, por ser bem maior, há demanda para praticamente tudo. A Arte Paranaense poderia tomar como exemplo não a São Paulo de hoje, mas a própria Curitiba dos anos 50, 60 e 70, onde com poucos recursos e à margem daquilo que chamamos hoje de mercado, conseguiu-se criar uma arte cosmopolita e distante não só desse ser mitológico chamado mercado, mas também da mão paternal do Estado.
Se a Arte está nas coisas simples, como tento demonstrar em meus trabalhos, o mesmo se dá com a vida. Às vezes, uma pincelada diz mais sobre o artista do que a própria obra. Essa pincelada poderá explicar o milagre da Arte, mas explicará muito mais o próprio milagre da vida. A Arte, então, é um bom caminho para entender a vida.
Ver a interação entre meu trabalho e o espectador é minha maior conquista. Desta forma, expor (ato que exige coragem, como a própria palavra sugere) é o ápice de qualquer projeto. A maior dificuldade, como de todos os artistas, é dar visibilidade ao meu trabalho.
Toda trajetória pressupõe uma necessidade. No meu caso, a necessidade de se expressar, me impulsionou para o desenvolvimento de determinadas habilidades que facilitassem o entendimento de um mundo diferente e a comunicação com ele. Minha forma de interpretar o mundo passa, portanto, pela minha paixão pelas artes plásticas. Foi a partir dela que vi o mundo pela primeira vez, e apenas a partir dela sei enxergar o mundo. Desde cedo percebi a necessidade do traço livre, solto, rápido, como o traço de Paul Garfunkel. Paradoxalmente, isto exige disciplina. O mesmo se dá com a mancha.
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