ENTREVISTA A LUIZ ARTHUR MONTES RIBEIRO, POR OCASIÃO DA EXPOSIÇÃO DA QUAL FOI CURADOR, NO CENTRO CULTURAL BRASIL-ESPANHA, EM MAIO DE 2001

  1. Para você o que é mais importante no mundo das artes?

Todo o processo é importante, principalmente a fase de criação (o fazer). Depois, a fase de comunicação com o espectador. O fazer – ético, acima de tudo – e a comunicação, transformam o mundo das artes em algo fascinante,

  1. O que significa, para você, esse conjunto de obras apresentadas nessa exposição?

Esse conjunto resume uma busca iniciada há muito tempo: a simplicidade da linha e, principalmente, da mancha; a transparência da cor e suas sobreposições; o branco – não como ausência da cor, mas como a soma de todas as cores, como queria Carlos Drummond de Andrade; a paisagem como território ético para experiências estéticas (ético, no sentido de respeito pelas coisas); e a tentativa de que o espectador possa “entrar” no quadro, resumida na seguinte equação: olhar-sentir-entrar.
     

  1. Descreva, sucintamente, cada obra que faz parte dessa mostra.

Todos o conjunto busca a representação de detalhes da natureza. Este conceito de representação não significa apenas uma imitação, mas a forma como observei alguns detalhes. Por exemplo, o trabalho (a) representa o detalhe de uma árvore que existe. Tentei captar os vários tons de verde, buscando principalmente atingir a transparência das cores. A sensação de incompletude é proposital.
No trabalho (b) a paisagem se amplia, a mesma árvore é vista de uma outra forma, em conjunto com uma casa, que se perde no meio do verde. A textura, nesse trabalho, é mais importante que a transparência. No trabalho (c) o verde ainda é uma obsessão, que está presente até nas nuvens, mas a mancha cede autonomia para a linha, que materializa a geometria das ondas do mar. Na obra (d) a simplicidade é radicalizada, os elementos são mínimos e o branco é preponderante. Há um misto de manchas e textura que foi obra do acaso: o tecido interagiu com a água de forma diferente em cada espaço de sua trama. O objetivo foi ser simples e nos remeter a um local conhecido em nossa memória, a mesma que surge no trabalho (e), fruto de simples manchas, que ocupam todos os espaços.
     

  1. O que é criatividade para você?

Criatividade é a soma de uma série de variáveis que acabam resultando em algo que nos espanta – porque sempre misterioso – como a própria vida. Essas variáveis incluem uma necessidade de se expressar; o desenvolvimento de uma técnica expressiva em conjunto com muito treinamento; o acaso; a liberdade; e um repertório que vai crescendo com a experiência.

  1. Como se realiza o processo criativo em sua obra?

Como o ponto de partida é, até agora, sempre a natureza, o primeiro momento é a observação de detalhes que podem passar despercebidos: as gradações de verde de uma árvore, a formação de nuvens num determinado dia, as linhas que a metrópole nos apresenta...
Num segundo momento, buscar a mancha que possa materializar esse olhar. Aí entra o acaso: tudo depende da trama do tecido, da quantidade de água e da quantidade de tinta. Como nada é calculado, é preciso esperar a secagem do trabalho para ver o resultado, que nunca é igual. Podem entrar aí outras variáveis: o clima, a umidade do ar, etc.

  1. Como você vê a Arte Paranaense, no contexto do nosso Estado e no Brasil.

É difícil comparar uma cidade como Curitiba com São Paulo, por exemplo, que, por ser bem maior, há demanda para praticamente tudo. A Arte Paranaense poderia tomar como exemplo não a São Paulo de hoje, mas a própria Curitiba dos anos 50, 60 e 70, onde com poucos recursos e à margem daquilo que chamamos hoje de mercado, conseguiu-se criar uma arte cosmopolita e distante não só desse ser mitológico chamado mercado, mas também da mão paternal do Estado.
Se foi possível antes, é possível hoje, já que Curitiba transformou-se numa capital moderna e rica em informações. A formação de um público específico, a especialização do trabalho do Curador, do Crítico e do Galerista, além da criação de espaços melhores, podem transformar o Paraná num pólo criativo mais visível, já que a visibilidade me parece ser o maior problema.

  1. O que é viver para você?

Se a Arte está nas coisas simples, como tento demonstrar em meus trabalhos, o mesmo se dá com a vida. Às vezes, uma pincelada diz mais sobre o artista do que a própria obra. Essa pincelada poderá explicar o milagre da Arte, mas explicará muito mais o próprio milagre da vida. A Arte, então, é um bom caminho para entender a vida.

  1. Em sua carreira, como artista plástico, quais foram as suas maiores conquistas e as suas maiores dificuldades?

Ver a interação entre meu trabalho e o espectador é minha maior conquista. Desta forma, expor (ato que exige coragem, como a própria palavra sugere) é o ápice de qualquer projeto. A maior dificuldade, como de todos os artistas, é dar visibilidade ao meu trabalho.

  1. Escreva sobre a sua trajetória artística, desde o primeiro momento até o atual.

Toda trajetória pressupõe uma necessidade. No meu caso, a necessidade de se expressar, me impulsionou para o desenvolvimento de determinadas habilidades que facilitassem o entendimento de um mundo diferente e a comunicação com ele. Minha forma de interpretar o mundo passa, portanto, pela minha paixão pelas artes plásticas. Foi a partir dela que vi o mundo pela primeira vez, e apenas a partir dela sei enxergar o mundo. Desde cedo percebi a necessidade do traço livre, solto, rápido, como o traço de Paul Garfunkel. Paradoxalmente, isto exige disciplina. O mesmo se dá com a mancha.
Minha trajetória está marcada pelos traços e manchas de Paul Garfunkel e pela arte zen japonesa, por mais distantes que eles estejam. Eles sintetizam meu horizonte: impossível de ser atingido, mas sempre uma meta a ser buscada.