ELISIANE CORREA: REFLEXÕES SOBRE A CORAGEM ARTÍSTICA
texto de João Coviello

Kandinsky afirmou que na arte a teoria jamais precede a prática. Para esse pioneiro da arte moderna, é o contrário que sempre ocorre. É no começo, antes de tudo, que a sensibilidade se faz presente. Assim pensava o mestre. É somente pela sensibilidade que se chega a alcançar o verdadeiro na arte. A grande questão para todos os artistas, de qualquer época, e Kandinsky escreveu sobre isso, é perceber que a arte é construída por meio de uma teoria, ou seja, passa primeiro pelo intelecto do artista. Porém, antes de tudo, essa teoria nasce da intuiçao do artista. Intuição, neste caso, pode ser definida como a apreensão primeira de um objeto, sem a intervenção do raciocínio. Clement Greenberg separa intuição comum de intuição estética: “A intuição que transmite a cor do céu passa a ser uma inuição estética tão logo deixa de informar como está o tempo e se transforma simplesmente numa experiênca da cor”. A intuição estética, portanto, permite ao artista (como também ao fruidor), um jeito de ver o mundo diferente do senso comum. A arte, para Kandinsky, age sobre e pela sensibilidade. Intuição, Necessidade Interior, Espiritualidade, vários nomes foram usados para explicar esse súbito arrebatamento no qual o artista é acometido. Platão mostra o poeta inspirado pelas musas, capaz de nos levar para um mundo novo. Esse poeta inspirado não obedece regras e nem cria regras. Neste ponto, porém, entramos na natureza íntima do atista capaz de criar obras de arte. A opção de Kandinsky em realizar um abstracionismo baseado na expressão e não um abstracionismo geométrico, tem como explicação o fato do segundo se fundamentar numa lógica anterior a própria criação. Não se pode esquecer que o mestre enfatizava o primado de uma dimensão espiritual na arte, ou seja, ele parece indicar para um tipo de arte que nasce da necessidade interior do artista.

Onde se quer chegar com esta longa introdução? A abstração de uma artista como Elisiane Correa também provém do mundo, como em Kandinsky, mas esse mundo não é mais visto como objeto a ser pintado, ou seja, ambos querem pintar a parte invisível desse mundo, que, por sua vez, só pode ser sentido. Entretanto, não há aqui uma separação entre dois mundos, mas o espelhamento de um com o outro. Também não há, no trabalho da artista, a dialética experiência interior/experiência exterior de Kandinsky, porque na obra de Elisiane o mundo interior espelha o mundo exterior. Não há separação. Ambos estão juntos, não há diferenças.

Isto parece ser o princípio do projeto abstrato de Elisiane Correa. A presença das cores nasce da experiência sensivel da artista. É assim que ela vê o mundo, é assim que ela quer retratá-lo. Mais uma vez é útil repetir: esse mundo não é retratável como objeto, mas como uma experiência interior da artista, que nos convida a viver a mesma experiência. Por isso, os objetos naturais na obra de Elisiane não têm um fim em si mesmos. Ou seja, a artista não quer imitá-los, pois a importância recai sobre o que não é visto. É esse não visto (o silêncio, por exemplo) que Elisiane Correa quer pintar. Tudo se fundamenta em linhas livres e manchas que se equilibram no espaço pictórico da artista, que parte de sua própria inuição para depois utlizar seu repertório técnico-teórico, próprio de quem domina as necessidades artesanais da obra. No entanto, a arte de Elisiane Correa não é feita apenas de cores e formas. Ela mantém a autonomia que as vanguardas históricas tanto desejavam. Assim, em seus trabalhos predominam elementos estéticos, sim, mas também os gestos e a vontade da artista. Nada de dramas, mas apenas o “furor” do pincel dessa artista que demonstra na prática, em suas próprias telas, seu processo criativo. O conteúdo, então, não esconde as formas, obtidas a partir da cor, como em Cézanne. Porém, na obra da artista, o sentimento é primário, o mundo representável é secundário.

Dois aspectos da pintura abstrata, segundo Meyer Schapiro, foram decisivos para quem se interessa pela teoria da arte: a exclusão das formas naturais e a universalização das qualidades artísticas. Desta forma, o trabalho de Elisiane Correa pode ser apreciado em qualquer lugar, pois é pura forma e pura expressão. Isto é uma defesa da arte abstrata, mas como tudo na vida, não há aqui certezas absolutas. Mesmo quando distorce as formas objetivas, o artista está falando do mundo. Este é o caso de Elisiane em seus trabalhos, particularmente na série “Fragmentos”. Ao buscar movimentos e gestos intensos, ela demonstra o quanto a natureza humana anseia por uma expressão livre, mesmo que seja no espaço do quadro. Com manchas e linhas fragmentadas, a artista deseja, segundo suas palavras, que essas formas aleatórias dêem corpo às sensações que convivem em nossos inconscientes. No fundo, a artista quer provocar nossos sentidos. Retornamos, assim, ao desejo de Elisiane em ultrapassar as barreiras intelectuais para chegar ao mundo das sensações. Texturas, manchas e linhas ganham mais importância que os próprios objetos, pois quererm ir além da natureza exterior. Querem, sim, mostrar a importância das condições subjetivas que marcam o trabalho de qualquer artista. Isto vale para a recepção da obra. Neste sentido, seu objetivo é pintar o que não pode ser pintado, como o silêncio, usado no exemplo acima, ou a dor, o pensamento, a alegria. Assim, a liberdade é o único critério ético que a artista segue. Isto exige coragem para se expôr, sem se esconder atrás da figura pintada. Por isso, a obra de Elisiane é profundamente pessoal, preocupada, antes de tudo, com sua própria experência com as coisas do mundo. Neste sentido ela é sutil, preocupada também com as possibilidades de inventar. Liberdade e invenção, portanto, são os fundamentos da artista. Daí seu engajamento intenso no trabalho, perceptível nas pinceladas gestuais que ficam congeladas para nossa apreciação.

Seu impulso primeiro é construir uma obra na qual se equilibrem forma, cores e – por que não? – beleza. Há um todo estruturado para que manchas e linhas atinjam este objetivo. Mais que transmitir uma mensagem, a artista quer porporcionar uma experiência sensorial no espectador. Um conjunto de percepções que contribuam para a valorização da liberdade de interpretação. Esta é a maior contribuição de um artista. Esta é a maior contribuição de Elisiane Correa.