O papel. O pão. A manteiga. A migalha. O papel manteiga. O embrulho.
A migalha grão. O miolo corpo. O contorno casca.
O bico do pão. O ponto do crochê. A ponta da agulha. A bobina de papel. A lâmina de ferro afiada.
O extenso fio.
A paisagem e o alinhamento.
As operações são instáveis: O que sobra de uma manhã. O que esparrama à noite. O que escapa no decorrer do dia.
Tudo vira pó. Nada é em vão.
Uma aurora. Um abismo. A vertigem.
Adriane Hernandez recolhe partículas do hábito comum.
Atenta às lições de Martin Heidegger e Francis Ponge, toma partido das pequenas coisas. Associa o pão à toalha da mesa, injetando impregnações de sonhos às imagens construídas com farelos.
Adriane fabrica as suas migalhas.
Com elas, dinamiza os espaços, potencializa os ambientes, pulveriza o contorno das paredes, perfurando os nossos vícios de enclausuramento. Com um certo tipo de enlace magrittiano, envolve as palavras e as coisas com o mesmo revestimento de tecido:
o sapato e os sonhos, o guarda-chuva e as nuvens, o mochinho de cozinha e o céu, a sacola de uso diário e as transparências do senso comum.
Migalhas podem ser retalhos mínimos de tecido xadrez branco e azul.
Migalhas podem ser flores de jacarandá, pontuando tanto a copa das árvores quanto os espaços de calçada sob cada uma delas.
Migalhas podem ser bocados de nuvem ao sabor dos ventos.
Migalhas podem ser as letras deste próprio texto, condensadas nos artigos definidos e indefinidos, grafados de modo singular.
Migalha como o um.
De toda forma, migalhas são como micro-olhos: as migalhas nos concernem, as migalhas nos dizem respeito. Migalhas sendo o avesso do deserto, em uma torção entre o dentro e o fora dos lugares comuns, em uma abordagem poética por prolongamentos.
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