PÃO E MEMÓRIA
Adriane Hernandez



                                      É no espaço que encontramos os belos fósseis de duração concretizados por longas durações.
                                      O inconsciente permanece nos locais. As lembranças são imóveis, tanto mais sólidas quanto
                                     
mais bem espacializadas.
                                                                                                                                                    Gaston Bachelard


A série “pão e memória”, é composta por meus últimos trabalhos fotográficos, em que exploro uma memória visual voltada para o cotidiano doméstico, conduzido pela imagem do pão. O espaço doméstico e o cotidiano são temáticas recorrentes em minha produção plástica desde 1993. Transitei por inúmeros meios como pintura, objeto e fotografia. No momento atual, fixei-me na fotografia-objeto, explorando os vazios, a repetição, e as molduras. As molduras intervém enquanto elemento favorecedor do discurso e não apenas como estratégia de acabamento. Delimitam um espaço para a imagem tornar-se visível e, ao mesmo tempo que rompem, circunscrevem uma continuidade. A repetição remete ao cotidiano e em outro momento (horizonte doméstico) configura uma ambigüidade formal: uma seqüência de fotos de pão em que uma forma de montanha se insinua ambiguamente, cria uma relação entre espaço doméstico e espaço natural supondo que aquele divagar solitário, implícito na idéia de horizonte aconteça, também, no espaço interno da casa.
O repouso e o silêncio são questões exploradas através da posição dos pães que, em alguns momentos, se assemelham a corpos, demonstrando a tranqüilidade que este espaço da casa, em meu ponto de vista, proporciona. Utilizo a imagem do pão como uma metonímia da casa; neste sentido, a noção deste como alimento é menos importante: o pão se torna um recurso para favorecer a memória a se manifestar, trazendo uma idéia da casa como espaço de divisão, de repetição, de acomodação, de divagação... A relação é conduzida... pão, embrulho de pão, fatia de pão, farelo de pão e superfícies: mesa, prateleira, chão... vestígios que tentam dar a tônica de um lugar, um espaço íntimo. Corpo e pão encontram-se cotidianamente, ocupam um espaço, “dormem”, constituem uma memória e são consumidos. Um movimento cíclico. A partir da idéia de lugar rompe-se com a dicotomia entre sujeito e objeto.


Prolongamentos dos fios de Adriane
Elida Tessler
novembro de 2007

O papel. O pão. A manteiga. A migalha. O papel manteiga. O embrulho.
A migalha grão. O miolo corpo. O contorno casca.
O bico do pão. O ponto do crochê. A ponta da agulha. A bobina de papel. A lâmina de ferro afiada.

 

O extenso fio.

 

A paisagem e o alinhamento.

As operações são instáveis: O que sobra de uma manhã. O que esparrama à noite. O que escapa no decorrer do dia.

Tudo vira pó. Nada é em vão.

Uma aurora. Um abismo. A vertigem.

Adriane Hernandez recolhe partículas do hábito comum.

Atenta às lições de Martin Heidegger e Francis Ponge, toma partido das pequenas coisas. Associa o pão à toalha da mesa, injetando impregnações de sonhos às imagens construídas com farelos.

 

Adriane fabrica as suas migalhas.

 

Com elas, dinamiza os espaços, potencializa os ambientes, pulveriza o contorno das paredes, perfurando os nossos vícios de enclausuramento. Com um certo tipo de enlace magrittiano, envolve as palavras e as coisas com o mesmo revestimento de tecido:

 o sapato e os sonhos, o guarda-chuva e as nuvens, o mochinho de cozinha e o céu, a sacola de uso diário e as transparências do senso comum.

 

Migalhas podem ser retalhos mínimos de tecido xadrez branco e azul.

Migalhas podem ser flores de jacarandá, pontuando tanto a copa das árvores quanto os espaços de calçada sob cada uma delas.

Migalhas podem ser bocados de nuvem ao sabor dos ventos.

Migalhas podem ser as letras deste próprio texto, condensadas nos artigos definidos e indefinidos, grafados de modo singular.

 

Migalha como o um.

 

De toda forma, migalhas são como micro-olhos: as migalhas nos concernem, as migalhas nos dizem respeito. Migalhas sendo o avesso do deserto, em uma torção entre o dentro e o fora dos lugares comuns, em uma abordagem poética por prolongamentos.